PELE NEGRA

A pele negra e a pele branca, por incrível que possa parecer, são mais semelhantes do que diferentes. No entanto, a capacidade do melanócito, que é a célula produtora de melanina, da pele negra é muito maior, produzindo grandes quantidades do pigmento, principalmente quando estimuladas por sol ou outras agressões.  O cabelo da raça negra também tem características próprias, sendo mais enrolado e mais fino, justificando cuidados especiais.

Os negros têm algumas doenças como queloide e dermatose papulosa nigra em maior proporção que os brancos. Algumas características também ocorrem, como melanoma acral que é mais grave nos negros. Porém, a grande diferença clínica consiste em responder mais intensamente a qualquer tipo de agressão seja doença, medicamento ou procedimento. A pele negra mancha mais e escurece mais quando são realizados procedimentos como peelings ou laser. 

Como já foi dito, as peles negra e branca são basicamente iguais e as doenças são as mesmas. A pele negra pode apresentar doenças como o vitiligo, o que, neste caso, fica mais evidentes devido ao contraste das cores. Outra característica é que quando a pele negra está ressecada também pode apresentar manchas hipocrômicas mal delimitadas, relacionadas a desidratação da pele.  Além disso, nos negros, toda lesão inflamatória, como a acne e o líquen plano, vão apresentar uma coloração bem mais marcante do que na pele branca. 

Não há tratamentos específicos para a pele negra e sim adaptações, usando menores concentrações de ativos nos peelings ou menor energia com os aparelhos de laser, por isso ela pode ser submetida a procedimentos variados como peelings, lasers, microagulhamento, toxina botulínica e preenchimento. Caso a pele seja muito agredida por estar mal preparada, ela pode manchar devido a hiperpigmentação pós-inflamatória.

O tratamento com laser é sempre mais difícil na pele negra, porque a maioria dos lasers age em alvos específicos, denominados cromóforos, sendo um dos mais importantes a melanina. Neste caso, os parâmetros precisam ser mais suaves para que a pele não fique queimada. Além disso, no caso dos peelings, se houver muita inflamação, tende a ocorrer maior produção de pigmento em resposta a agressão. Assim como no caso dos lasers, os peelings também devem ser ajustados para a pele negra, utilizando-se concentrações mais baixas, menos camadas, menos pressão, além de preparar a pele com tretinoína (derivado da vitamina A) e hidroquinona que é um clareador. Podemos utilizar peelings de ácido retinoico, alfahidroxiácidos e também ácido salicílico. Durante o período de descamação a pele deve ser protegida com filtro solar e a recuperação da pele negra ou miscigenada, quando realizamos um peeling, é mais difícil do que na pele branca. 

A pele negra tem a proteção extra de maior quantidade de melanina sendo menos susceptível ao chamado fotoenvelhecimento, apresentando menos rugas e manchas que a pele branca da mesma idade. Isto não quer dizer que a mesma envelheça menos, pois a pele negra também pode apresentar grau importante de flacidez.

Envelhecimento cutâneo e o câncer de pele

A pele é o único órgão do corpo humano que possui dois envelhecimentos: o cronológico intrínseco e fotoenvelhecimento ou extrínseco. O primeiro é regido pelo relógio biológico, havendo mudanças genéticas, químicas e hormonais. O segundo é causado pela exposição cumulativa à radiação solar. Há diferenças marcantes entre o envelhecimento intrínseco e o fotoenvelhecimento, que são coerentes com as alterações bioquímicas e moleculares. No envelhecimento pela idade, a textura da pele é lisa, homogênea e suave, com atrofia da epiderme e derme, menor número de manchas e discreta formação de rugas. No fotoenvelhecimento, a superfície da cútis é áspera, nodular, espessada, com inúmeras manchas e rugas profundas bem demarcadas.

A luz solar, através dos comprimentos de onda UVA e UVB, causam danos progressivos às várias estruturas da pele, como: DNA, queratinócitos, melanócítos, vasos, fibras, glândulas entre outras. A agressão crônica e progressiva vai acumulando até tornar-se perceptível em forma de manchas, rugas, flacidez e também câncer de pele.

A proteção solar é essencial para preservar a pele e também para prevenir o envelhecimento, já que a radiação ultravioleta é responsável por cerca de 80 – 90% do envelhecimento observado na pele. A fotoproteção solar constitui importante medida para prevenir e tratar o envelhecimento cutâneo. Ela deve ser iniciada na infância, sendo necessária a educação quanto aos horários de exposição, evitando-se sol entre as 10 e 15 horas nas situações de exposição intensa.

O fotoprotetor deve ser aplicado 30 minutos antes da exposição solar e reaplicado a cada 2 horas. Além disso, roupas e chapéus também devem fazer parte da proteção. O filtro solar deve ser passado em toda a superfície cutânea, numa quantidade equivalente a 2mg/cm2.

Existem dois tipos de filtros solares: o filtro químico e o filtro físico. O primeiro interage quimicamente com a radiação ultravioleta e transforma a mesma em calor. O segundo protege através de uma barreira promovendo a reflexão dos raios ultravioleta. Os filtros também podem ter outros princípios ativos como: hidratantes, vitaminas antioxidantes e clareadoras. Hoje também vale salientar o papel dos reparadores celulares, pois eles também desempenham papel importante na fotoproteção, corrigindo alterações do DNA.

O DNA (desoxirribonucleic acid) é uma molécula presente no núcleo de todas as células dos organismos vivos, cuja principal função é o armazenamento da informação necessária para síntese de moléculas celulares. O DNA abriga todas as informações do código genético.

A radiação UV pode também danificar o DNA pela interação direta com os ácidos nucleicos ou indiretamente através de intermediários ROS (Espécies Reativas do Oxi­gênio) os quais foram previamente afetados pela radiação. Essas mesmas espécies podem ser geradas de forma extrínseca, pela absorção da radiação UV na pele. A ge­ração de Espécies Reativas do Oxigênio (ROS) também ocorre durante o metabolismo celular oxidativo, que leva à oxidação de bases nitrogenadas, normalmente guaninas, podendo resultar em mutações. Sendo assim, essas mutações podem ocorrer independentemente da exposição solar. Além da oxidação ela guanina, mais frequentemente, temos a formação de Dímeros de Ciclobutano Pirimidina (CPO) que são formados pela absorção direta de fótons de UV sem nenhum intermediário de ROS. A formação desses dímeros através de uma reação fotoquímica ocorre em frações de segundos e não pode ser interrompida por antioxidantes, pois não gera radicais livres.

Os danos ao DNA induzidos pela radiação UV levam a ativação de novos genes e a liberação de sinais de estresse incluindo interleucina (IL-1), fator de necrose tumoral alfa (TNF) e IL-10, que também ativam novos genes. Essas citocinas liberadas agem na própria célula e em células distantes. Entre os genes que são ativados há aqueles para metaloproteases-1 (MMP-1) que degradam o colágeno. O efeito é a degradação do colágeno, que é uma das marcas da pele fotoenvelhecida. Os filtros solares podem prevenir parte do dano ao DNA, mas não podem evitá-la completamente.

As endonucleases são enzimas que atuam reconhecendo sequências de pares de bases especificas em moléculas de DNA com mutações e clivando-as nesses pontos. Elas são altamente especificas: cada tipo de enzima reconhece e corta apenas uma determinada sequência de nucleotídeo. Um mecanismo importante de defesa denomina-se reparo por excisão de nucleotídeos ou NER (nucleotide excision repair). Este mecanismo fisiológico permite a remoção das mutações ocorridas no DNA pela exposição a radiação ultravioleta, relacionadas a criação de dímeros de timina.

Desta forma, produtos com enzimas como as endonucleases corrigem danos celulares causados pelo sol (RUV) que não foram evitados com uso do filtro solar.

Estas formulações vêm complementando mais a capacidade de proteção a pele, evitando o fotoenvelhecimento e o câncer de pele.

MELASMA

O melasma é uma das queixas mais frequentes nos consultórios de dermatologia. Conhecido como manchas de gravidez ou cloasma, é uma hipermelanose adquirida, crônica, de etiologia não bem definida, caracterizado por máculas (manchas) de coloração acastanhada, simétricas em áreas expostas da pele, principalmente na região frontal e malar. É uma condição comum, acomete indivíduos de todas as raças e ambos os sexos, sendo mais observado em mulheres em idade fértil e com fototipos mais altos – mais morenas (IV – V de Fitzpatrick), e que vivem em áreas com elevada radiação ultravioleta (UV).

Constitui uma dermatose de grande impacto psicológico, devido ao aspecto inestético de suas lesões, cronicidade e complexidade de tratamento.

Recentemente, com o alto desenvolvimento da ciência genética, foi observado que o gene H19 se comporta de forma mais lenta e isso pode estar relacionado à intensificação da ação da enzima tirosinase que, por sua vez, aumenta a quantidade de melanina.

A exposição solar é considerada o fator mais importante e hoje já podemos entender porque o sol piora tanto o melasma. Isso está relacionado a grande produção de radicais livres gerada pela exposição aos raios ultravioleta. O excesso de radicais livres gera inflamação na pele e estimula a tirosinase, aumentando a pigmentação. Exposições repetitivas levam a um aumento do número de melanossomas, bem como do numero de melanócitos ativos. Estes fatos justificam a relação da exacerbação e/ou surgimento do melasma após a exposição solar.

Fatores hormonais, especialmente na gravidez e o uso de anticoncepcionais orais também estão relacionados à piora e/ou surgimento do melasma.

Recentemente, estabeleceram-se interações entre o aumento da vascularização cutânea e a melanogênese. Em vista dessas novas descobertas, hoje podemos classificar o melasma como vascular ou não vascular, e no primeiro, o tratamento também precisa atingir as lesões vasculares.

Até o momento existe terapia com resultados totalmente satisfatórios para o melasma. Várias propostas têm sido feitas, com o principal objetivo de clarear as lesões, prevenir e reduzir a área afetada, com o menor número possível de efeitos adversos.

O uso de protetor solar de amplo espectro (UVA e UVB) com cor é fundamental. Sabemos que a luz visível, aquela das lâmpadas e computadores, também provoca escurecimento da pele. Esse é um aspecto importante do tratamento, pois não temos filtro solar específico para a luz visível. O filtro para proteger da luz visível precisa ter cor, pois o pigmento bloqueia essa radiação.

Os diferentes tratamentos propostos atuam em diversas etapas da formação do melasma, seja por inibição da tirosinase (ex: hidroquinona, tretinoína, ácido azelaico, ácido kógico), por supressão não seletiva da melanogênese (corticóides, ácido tranexâmico), por inibição de espécies reativas de oxigênio (ácido azelaico, antioxidantes), por remoção de melanina (peelings químicos e/ou físicos) ou por dano térmico (luz intensa pulsada, laser). Geralmente para se obter uma melhor resposta terapêutica, o que se observa é a necessidade de tratamentos combinados.

Podemos associar, principalmente nos casos refratários, procedimentos como peelings químicos, microdermoabrasão, luz intensa pulsada, laser fracionado, laser vascular, além do laser Q-Switched ND:YAG (aprovado especificamente pelo FDA para o tratamento do melasma). Alguns estudos têm mostrado benefícios com o uso do microagulhamento. Todos estes procedimentos devem ter indicação e acompanhamento médicos.

É primordial o esclarecimento do paciente com melasma sobre a cronicidade de sua patologia, dificuldade terapêutica, necessidade da aderência estrita à proteção solar de amplo espectro e de tratamento de manutenção.

Muitos estudos e pesquisas continuam sendo realizados no sentido de atualizar e revisar o mecanismo desta patologia e desvendar terapêuticas cada vez mais eficazes.

Melasma: mancha perturbadora e reveladora

O melasma se apresenta como uma mancha marrom simétrica sem sintomatologia, que ocorre na face de mulheres em idade fértil. Essa espécie de máscara perturba muito a autoestima das mulheres comprometidas. Embora, o melasma possa em algumas situações, ser confundido com outras manchas, tem características muito próprias, que suscitam algumas especulações.

Por que essa mancha só aparece na face? O sol é o causador ou há predisposição familiar?

Por que ocorre muito mais em mulheres? Qual a relação dessa hiperpigmentação como os hormônios? Por que melhora após a menopausa?

Por que as mulheres morenas apresentam essa mancha com mais frequência? Qual a relação do estresse com o melasma?

Algumas dessas perguntas começam a ser respondidas a luz de estudos profundos de epidemiologia, biologia molecular e histopatologia. Há aparentemente uma grande influência da genética para o aparecimento do melasma. Em alguns estudos epidemiológicos a ocorrência familiar varia de 15% a 60%. Além disso, outras avaliações demonstraram que as peles mais morenas, como as das latinas americanas, são mais suscetíveis ao aparecimento do melasma.

Quanto ao sol, ele realmente é significativo para o aparecimento do melasma. O sol, através dos raios UVA e UVB, provoca uma agressão Às células da pele. O sol agride a própria célula da pigmentação, chamada melanócito, que produz mais melanina. O sol também agride as células das camadas mais superficiais, chamadas queratinócitos, além das células da derme, chamadas fibroblastos. A interação entre os queratinócitos, fibroblastos e melanócitos é muito afinada e complexa. Essas células reagem ao sol e estimulam vários elementos, como hormônios da pigmentação e também várias citocinas inflamatórias. Por este motivo, podemos utilizar novos medicamentos, como ácido tranexâmico, que evita o impacto desse estímulo ao queratinócito e, sendo assim, impede a comunicação com o melanócito e, portanto impede a pigmentação.

A luz visível, aquela das lâmpadas e computadores, também provoca escurecimento da pele, principalmente nas peles mais morenas, que são mais predispostas a ter melasma. Esse também é um aspecto importante na escolha do tratamento, pois não temos filtro solar especifico para a luz visível. O filtro para proteger da luz visível precisa ter cor, pois o pigmento bloqueia essa radiação.

Respondendo porque mulheres tem mais melasma comparado com homens, isso deve a fatores hormonais, pois hoje se sabe que a pele manchada tem mais receptores para o estradiol (estrogênio) do que aquela sem mancha. Quanto a grávida, além desse fator, também há aumento da produção do hormônio melanócito estimulante.